segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

TARDE DE PRIMAVERA NO BARROCAL ALGARVIO



( os canaviais )


Um bater ritmado como um coração

sobressalta o vento nos canaviais

- alguém partindo amêndoas -


Eles

revoltos cabelos da terra molhada

bailam ao vento 

fragmentos de valsas...agora rodopiam

seus vestidos de cadilhos verdes

amarelas ramas,

depois se deixam,

lânguidas damas 

levar por suaves melodias


( os pássaros )


um canto alegre dá forma,

sem se ver,

ao perfil das crias de um passarinho


( as laranjeiras )


e eis senão como, 

fileiras de laranjeiras

orgulhosas mães prenhes

de laranjas amarelas

entoam cantos visuais

-verde escuro em almas claras-

e, enquadrando-lhes o espaço

em que ” in praesentia ” são,

repuxos de voluptuosas palmas


( as nuvens )


as nuvens estão de passagem

- maravilhoso mundo em que nem as pedras se abstêm

de participar no movimento -

pon pons de branco e gris

que já choveram tudo sobre a praia

e vão

agora encher os rios que vão

sulcando os vales


( e as pedras )


de entre elas, alguma

sentirá o calor do meu corpo

sobre o seu corpo, desfrutando

outra, devolva grata ao sol,

na forma de brilho

a sua generosa dádiva de luz e de calor


e há-as

que como as nuvens

viajem no carrossel das águas 

e dos tempos,

a formar leitos de outros rios


e muitas

que se deixem habitar

pelos irmãos insectos

as irmãs minhocas

as irmãs aranhas

e os irmãos grilos


sempre de passagem


( as pitas )


e as pitas, irmãs pitas

- como todos os homens irmãos -

pungentes

se guarnecem

de tácticas defensivas

com seus frutos vermelhos

sangrentos mas saciantes


(  já no mar )


lá mais para o sul

onde já cheiram as algas

estão as plenas pedras guardiãs

do mar e da terra

os peitos de basalto e areia erguidos

provocando a provocação das ondas


não são rochedos,  não 

são grandes pedras

enormes metáforas

de mulheres de pedra


( e no alto, desavergonhado, o sol oferecendo-se )


tomem-me costas atlânticas !

toma-me mediterrâneo arisco e quente,

tomem-me gregos,  troianos 

pedras,  nuvens e laranjas,

toma-me criança do sul

como se eu fosse um xalavar de caramelos !


e tome-me o mar,

meu repouso, minha casa

meu alter ego

de espuma e paz


( e eu )


e neste esboço estou eu

no centro nuclear do pensamento

e do olhar


não está o sol, nem os canaviais

estou eu

pensante e intérpetre de pitas e de pedras

ser estético e, acaso, mais coisas

acabadas em ético - ilusão dos homens -

como profético, poético, patético 

malabarista, sim

e província de desejos

geografia atormentada de impulsos 

e de ideias


canaviais também os meus cabelos

e valsas

no sentido que fazem correr-me pelas veias

o cântico dos ventos, das pedras, do mar


Ah…e os meus cabazes

( Ó os meus cabazes...)

transbordando de amêndoas

e laranjas...

        

                                                                                    Isabel Bita Gomes


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