( os canaviais )
Um bater ritmado como um coração
sobressalta o vento nos canaviais
- alguém partindo amêndoas -
Eles
revoltos cabelos da terra molhada
bailam ao vento
fragmentos de valsas...agora rodopiam
seus vestidos de cadilhos verdes
amarelas ramas,
depois se deixam,
lânguidas damas
levar por suaves melodias
( os pássaros )
um canto alegre dá forma,
sem se ver,
ao perfil das crias de um passarinho
( as laranjeiras )
e eis senão como,
fileiras de laranjeiras
orgulhosas mães prenhes
de laranjas amarelas
entoam cantos visuais
-verde escuro em almas claras-
e, enquadrando-lhes o espaço
em que ” in praesentia ” são,
repuxos de voluptuosas palmas
( as nuvens )
as nuvens estão de passagem
- maravilhoso mundo em que nem as pedras se abstêm
de participar no movimento -
pon pons de branco e gris
que já choveram tudo sobre a praia
e vão
agora encher os rios que vão
sulcando os vales
( e as pedras )
de entre elas, alguma
sentirá o calor do meu corpo
sobre o seu corpo, desfrutando
outra, devolva grata ao sol,
na forma de brilho
a sua generosa dádiva de luz e de calor
e há-as
que como as nuvens
viajem no carrossel das águas
e dos tempos,
a formar leitos de outros rios
e muitas
que se deixem habitar
pelos irmãos insectos
as irmãs minhocas
as irmãs aranhas
e os irmãos grilos
sempre de passagem
( as pitas )
e as pitas, irmãs pitas
- como todos os homens irmãos -
pungentes
se guarnecem
de tácticas defensivas
com seus frutos vermelhos
sangrentos mas saciantes
( já no mar )
lá mais para o sul
onde já cheiram as algas
estão as plenas pedras guardiãs
do mar e da terra
os peitos de basalto e areia erguidos
provocando a provocação das ondas
não são rochedos, não
são grandes pedras
enormes metáforas
de mulheres de pedra
( e no alto, desavergonhado, o sol oferecendo-se )
tomem-me costas atlânticas !
toma-me mediterrâneo arisco e quente,
tomem-me gregos, troianos
pedras, nuvens e laranjas,
toma-me criança do sul
como se eu fosse um xalavar de caramelos !
e tome-me o mar,
meu repouso, minha casa
meu alter ego
de espuma e paz
( e eu )
e neste esboço estou eu
no centro nuclear do pensamento
e do olhar
não está o sol, nem os canaviais
estou eu
pensante e intérpetre de pitas e de pedras
ser estético e, acaso, mais coisas
acabadas em ético - ilusão dos homens -
como profético, poético, patético
malabarista, sim
e província de desejos
geografia atormentada de impulsos
e de ideias
canaviais também os meus cabelos
e valsas
no sentido que fazem correr-me pelas veias
o cântico dos ventos, das pedras, do mar
Ah…e os meus cabazes
( Ó os meus cabazes...)
transbordando de amêndoas
e laranjas...
Isabel Bita Gomes